quarta-feira, 16 de maio de 2012

A MELHOR RELAÇÃO DO MUNDO

(Texto escrito para minha coluna RETICÊNCIAS UMA VÍRGULA, da Revista Città. Maio/2012)
         Se eu não tivesse minhas filhas talvez falasse de qualquer outro assunto, mas pertinho de celebrar o dia daquelas que geram a vida, que são colo a vida inteira e amor de ponta a cabeça, não me vem outra inspiração senão essa: a maternidade.
         Outro dia, vendo um comercial na internet, caí em prantos. Quanta emoção poder ver o que o nosso amor pode construir na vida dos nossos filhos, não é mesmo? Aqueles 2:04 mostram mães que, desde bem cedo, fizeram sacrifícios junto de sua prole (físicos, até!)  para que eles se tornassem grandes atletas. No decorrer da propaganda vamos acompanhando o crescimento daquelas crianças e comemorando cada vitória que é admirada pelos olhares cheios de lágrimas de cada mãe. No final surge a frase: “O trabalho mais difícil do mundo é o melhor trabalho do mundo.” Mais uma vez, eu tive que concordar.
         Ao passar do tempo venho percebendo que, mais difícil do que o cansaço físico e mental de educar os filhos é ver a roupinha daquele bebê, que antes cabia no seu colo, ficar curta e apertada; que eles estão preferindo a festa só com as amiguinhas do que um passeio com a mamãe. Acho difícil ver que está chegando a hora em que vai pintar a primeira paixão, as saídas noturnas, as baladas com a turma, e que aos poucos, vamos perdendo espaço e aquela necessidade que tanto nos sufocava, mas que ao mesmo tempo era tão confortável.
         Certa vez minha irmã me disse que não podemos lamentar o crescimento de nossos filhos porque “crescimento pressupõe saúde, rompimento de limites, vida vitoriosa. Não combina com sofrimento”, e é fato que depois disso passei a olhar esse transpor de fases com mais admiração e menos pesar. Comecei a comemorar minhas vitórias como mãe quando percebia os acertos e bons comportamentos delas, e a entender que o cansaço do “educar diariamente” tem recompensas diárias também.
         Passei a contemplar mais o fato de que minhas princesas estão crescendo não só em tamanho, mas também em sabedoria, alegria, graça e saúde, e a única coisa que sinto é gratidão e amor. Amor que vai ganhando um novo contorno a cada dia... oras rasura e bagunça nosso rascunho todo organizado, oras enche de cor o desenho sem graça que vínhamos rabiscando no papel da vida.
         Tenho uma amiga que, por motivo de saúde, precisa de duas injeções diárias - durante os 9 meses - para manter sua gravidez. Ela não teve medo e encarou com tanta coragem... Na verdade, pra que pudesse viver esse amor que ilumina a gente de dentro pra fora, ela tirou “esse pequeno detalhe” de letra. Marina nasceu linda e cheia de saúde. Agora, ela quis ser mãe outra vez, e há 6 meses toma as mesmas injeções, duas vezes por dia pra que seu rapazinho nasça lindo também; sem reclamar, sem arrependimento e sem dramas. Até porque ela já viu como vale a pena...
         Que todos os dias, mas especialmente nesse Dia das Mães, todas nós possamos receber abraços, beijos e todo o amor que houver nessa vida, muitas vezes representado num sorriso lindo que só vem lá no final daquele dia tão tumultuado, mas que faz tudo, tudo mesmo, ter graça, sentido e razão de ser. Que nossos filhos tenham saúde e que o perfume desse nosso dia especial, seja o cheirinho do abraço deles. Esse é o meu grande desejo a todas as Mães!

P.S: Veja o comercial e emocione-se você também: http://www.youtube.com/watch?v=RoQ1iYREvgI

quarta-feira, 7 de março de 2012

SOMOS SINAIS DE PONTUAÇÃO

         Tenho dedos afoitos e fome de letras. Não leio tanto quanto gostaria, mas escrevo bem mais do que deveria. Não. Escrever não é errado, mas eu já te explico o porquê disso se tornar um desafio, às vezes.
         Cresci sendo incentivada a escrever pelos meus professores queridos e, também, pelos colegas que compartilhavam dos meus textos e se identificavam com eles... Como sempre gostei de me revelar no papel, recebia cada palavra de incentivo com coração e asas abertas, porque o que eu mais queria mesmo era voar em cada linha, cada traço e cada história.
         Falo muito também, mas se conversarmos, talvez não me revele tanto quanto se você me der papel e caneta. Dos meus amigos sou o baú mais cerrado e trancado do mundo. Nada que me contam sai da minha boca ou do meu papel, já os meus segredos... ah, com eles não tenho pudor algum!
         Ouço os leitores vorazes dizerem que eles descobrem verdadeiros mundos nos livros e sempre me vi, de certa forma, entediada ao ter que virar a página para descobrir o novo desfecho “desse ou daquele pensamento”; talvez a minha inquietude tenha uma boa parcela de culpa nisso. Em contrapartida, sempre descobri, inventei, curei e revelei mundos que guardo em mim nas linhas que ouso rabiscar e encher de letras, e essa sensação sempre me fascinou. Amo olhar pra dentro, vasculhar minhas gavetas, jogar fora o que não cabe mais, e amo – com todas as minhas forças – arrumar o que me veste bem, o que me faz sentir bonita e de bem com a vida. Escrever me proporciona essa faxina interna. Descubro, acho, recordo, apago, amasso, jogo fora e às vezes vou no lixo buscar de volta... é um mexe-mexe danado, e a cada vasculhada descubro coisas novas, interessantes, amadurecidas e melhor aproveitadas que da última vez. Também descubro coisas que precisam de reparos urgentes; e logo trato de arranjar alguém que me ajude a fazer tudo funcionar direito!
         Outro dia, pensando nessa minha paixão tão particular por escrever, comecei a relacionar meus amigos aos sinais de pontuação. Interrogação, exclamação, ponto final, vírgula, reticências, ponto e vírgula, dois pontos, aspas... Rindo à beça, revelei à uma dessas amigas queridas que havia relacionado muitas pessoas com esses recursos. Ela, a propósito, é um super Ponto Final. Focada, auditiva, direcionada que só, não dá margem pra dúvidas.
         Adorei a experiência e comecei a listar um por um à procura de sua “pontuação gêmea”. Olha, achei tanta coisa interessante, tantas características que nunca havia prestado atenção. Percebi que, assim como nos textos, nem sempre quem lê usa a mesma entonação e os pontos que quem escreveu usou... Quantas vezes já fui surpreendida por pessoas que colocaram vírgulas onde não pus, ponto final onde eu havia colocado reticências e interrogação onde eu só digitava exclamações! Por causa dessas interpretações particulares tomadas de paixão e um só foco, quase desacreditei na minha capacidade de comunicação, mas aí, relacionando os pontos às pessoas, vi que usamos com mais freqüência aqueles que nos são comuns e habituais.
         Pois bem, em minha lista de amigos (numerosa, graças a Deus) achei quase todos os sinais de pontuação e confesso – mais uma vez – que foi algo muito divertido. Queria citar aqueles que encontrei logo de cara, mas acho melhor não criar ciumeira... Vou terminar esse texto com minhas reticências que comportam um hiato imenso e não dão brecha pra ninguém querer colocar um ponto final em nossa relação.
        O que sei – e posso dizer – é que de todas as pessoas que pensei, nenhuma é mais “Exclamação” que eu! Ri disso também, acompanhada da minha amiga “Ponto Final”, que certeira feito flecha nem me deixou pensar em outra opção pra mim! E eu a-do-rei!!!!!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O QUE É A VIDA, AFINAL?!

         O que é a vida, afinal? Respirar, levantar, andar, sentar, comer? Ah, me perdoem os que passam por aqui sem nenhuma intensidade ou com pesar, mas pra mim, a vida é bem mais!
         Vejo a vida com olhos muito brilhantes. Gosto do gosto das coisas, amo o cheiro que os momentos têm, aprecio sem moderação o que posso sentir das relações, dos amores, das conversas e das amizades, enfim. Gosto da vida. Gosto de ouvi-la. Ora cheia de barulho, ora quieta que só, gosto de tudo que é dela!
         Mas a vida é muito frágil também. Fio invisível que quando se rompe cala toda a festa, apaga todo o brilho, desmancha toda a decoração. De um minuto pro outro, o vento que espalha o pólen cessa, a chuva que alimenta a vida seca, o sol que traz o calor acinzenta. Estranho ver a vida ir.
         Hoje, em dia gostoso de chuva que pude passar INTEIRINHO em casa com minhas meninas, pensava e escrevia sobre a vida quando fui surpreendida pelo fim de uma que eu tanto quis bem. Meu tio querido, lembrança de olhar gostoso e sorriso sempre à minha disposição. Bem menos convivência do que eu realmente gostaria que tivesse sido, mas com os “EU TE AMO(s)” que eu queria dizer, devidamente ditos toda vez que o via. Mês passado, já bem cansado, fui vê-lo. Os carinhos que hoje fiz quando a vida já cantava longe dali, fiz enquanto ele pôde sentir. Os beijos que hoje eu dei no rosto que não me sentia mais, dei enquanto o sangue corria quente também. Ele foi em paz, eu sei. E assim eu fiquei também. Eu estive aqui, assim como estava ali. Que bom.
         O fim da vida dele me levou para dentro de um PS de hospital público, e me fez conhecer a realidade desumana que tantas pessoas que sofrem precisam encarar. Pra fechar com “chave de ouro”, vejo chegar uma menina desmaiada, cabeça estourada (que depois ganhou 8 pontos), vítima da ira da própria mãe. Eu agradeci a Deus por nunca ter me mostrado tudo isso antes, chorei por aquela criança bem mais do que chorei pelo meu tio, e pedi que Ele faça TODA vida valer a pena. Não só a minha, mas a de todos nós que buscamos aqui nesse lugar, o calor das mãos, o aconchego do amor, a serenidade da paz.
         Ao voltar pra casa, mais chuva alimentando mais vida e um único pensamento: “Isso aqui acaba rápido demais...” Eu quero mais é aproveitar o bom da vida, o calor das pessoas e do amor que delas posso colher (e dar).
A vida é agora. Está acontecendo. Tem que valer!

ENCENAÇÃO, SÓ NO PALCO!

          Pela 2ª vez vivi uma experiência deliciosa: participei do Projeto Pais em Cena, com a peça A BELA E A FERA, onde vivi a personagem "LEITE KENT" (muito bem mostrada aqui na revista, pela Chris Lehrback, em sua coluna). Foram 4 dias de apresentações com casa lotada, e ali no palco pude fazer um pouco daquilo que também é minha grande paixão: representar.
Numa dessas tardes gostosas de café aqui na redação falávamos sobre meu texto dessa edição, quando meu amado Zu Campos perguntou: “Por que você não fala sobre o teatro e sobre encenar?” Foi a palavra chave para que um deslizamento de idéias soterrassem a minha paz. “Escreva, Larissa! Escreva”, gritava minha cabeça, como ela faz todas as vezes que uma coisa nova nasce aqui dentro. Então, estava decidido: eu falaria sobre minha paixão – e minha aversão – sobre encenações. E eu já vou explicar como posso amar e odiar a mesma coisa, e quase ao mesmo tempo.
         Sempre me senti muito ligada à música, textos, museus e, em especial, a teatros. Teatro cheio, vazio, o palco, a cortina e o cheiro... ah, o que é o cheiro de um teatro, hein?! Eu simplesmente AMO!
         Lembro que em uma visita a Juiz de Fora minha irmã me levou para conhecer o maior e mais imponente teatro da cidade, que em horário comercial, estava vazio e grandiosamente silencioso (até então nunca pude dimensionar o silêncio!). Entrei e não consegui falar nem uma palavra, apenas fixei os olhos no palco e fui andando... minha cabeça estava lotada e ao mesmo tempo deserta. Minha vontade era, com licença da sinceridade, ajoelhar e fazer uma oração. Que lugar! Que energia! Lembro da emoção que tomou conta de mim e da frase que repetia sem parar na minha cabeça: “É isso o que quero fazer! É isso o que eu quero fazer da vida!”.
         Difícil ter coragem de tentar algo tão incerto e ousado com trabalho e família estruturados aqui, mas achei minha maneira de – pelo menos uma vez por ano – fazer o que sempre sonhei. Mas também descobri outra coisa importante: amo teatro apenas no teatro. Personagens devem tomar conta de nós apenas durante o espetáculo. Depois da macia cortina fechada e do aplauso final, gosto de gente que é de verdade, sem máscaras e sem disfarce.
         Tenho reparado que muitas pessoas adorariam, em público, dar uma gargalhada alta, um abraço apertado ou um beijo estalado naquela pessoa querida que não via há tempos, mas que se contentam com o sorrisinho contido, com o aperto de mão, com os dois beijinhos na bochecha e com o cordial “Oh, quanto tempo!”. Muita gente ouve algo que discorda, mas guarda a própria opinião para não se expor ou comprometer. Descobri que isso é até importante, mas que não sei fazer e tenho aversão.
         Talvez eu até precisasse aprender a lançar mão de certos personagens no meu dia a dia: ora mais reservada, ora mais política, ora menos passional, talvez; mas quando percebo já arranquei a peruca, os acessórios e a maquiagem, e de cara lavada, sou eu mesma no corre-corre dos dias e das semanas que me engolem.
É claro que o preço na bilheteria sobe por conta disso, mas é o preço que preciso pagar pra viver em paz. Se é bom ou ruim? Às vezes muito bom. Às vezes muito ruim. Mas não sei fazer diferente. Então, sem fantasia, sem truque na voz e sem cortina eu construo a minha história da vida real. Eu mesma, de verdade e sem personagem.